187. Hidrovia Tietê-Paraná

Em nossos últimos textos tivemos a oportunidade de conhecer melhor os modais de transporte. Pelo que aprendemos, o transporte hidroviário é o mais adequado para grandes distâncias e cargas, consome pouco combustível e desloca uma quantidade descomunal de toneladas.

Em termos marítimos, o transporte hidroviário responde por 75% de todas as transações brasileiras.  Assim como a maioria dos países do mundo, dependemos dos portos para transações internacionais. Entretanto, internamente, o transporte fluvial é tremendamente subutilizado. Somente cerca de 14% de nossas cargas são transportadas por rios e lagos.

Comboio com um barco empurrando duas enormes chatas no rio Tietê. Cada chata equivale a dezenas de caminhões. Imagem: Internet.

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Como já abordado no texto 185, temos mais de 22 mil km de rios navegáveis, umas das maiores malhas mundiais. O problema é que a maior parte desse total está localizado na Amazônia, região com uma densidade demográfica baixíssima, com exceção da cidade de Manaus.

As regiões Sudeste e Sul, que possuem grande produção industrial, são cortadas por rios de planalto, necessitando de grandes obras para estarem aptos a navegação de grandes barcos e chatas. Como historicamente não investimos em logística e infraestrutura, somos carentes nesse tipo de transporte.

Trechos de rios navegáveis no Brasil. Como podem ver, com exceção da região Norte, nossas hidrovias são desconexas. Apesar do rio Paraná se conectar ao Paraguai após sair do Brasil, possuem obstáculos que impedem a ligação, como a Hidrelétrica de Itaipu. Imagem: Internet.

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As principais hidrovias do Brasil são dos rios:

  • Tocantis-Araguaia, somam, juntos, quase 3.000 km navegáveis, conectando o Centro-Oeste ao Oceano Atlântico. Infelizmente não é totalmente navegável o ano todo, necessitando de algumas obras de adequação já em estágios iniciais. Veja no site do próprio Governo Federal. 
  • Madeira, muito importante para transporte de soja, milho e açúcar. É tão impressionante que conecta Porto Velho, capital de Rondônia, encravada no meio do continente, ao Oceano Atlântico;

A hidrovia Madeira conecta Porto Velho ao rio Amazonas, próximo a Itacoatiara. Com isso, as embarcações chegam até o Oceano Atlântico, através do maior rio do mundo. Imagem: Internet.

  • Taguari-Guaíba, conecta o interior do Rio Grande do Sul a Porto Alegre. Da capital seguem para o Oceano Atlântico;

As lagoas dos Patos e Mirim fazem parte dessa hidrovia. Marcados com letras grandes estão eclusas que permitem a passagem de embarcações. Saiba mais no site do DNIT.

  • São Francisco, infelizmente, diminuindo a cada dia, graças ao assoreamento que faz com que o rio fique cada vez mais raso. Antes muito navegável, atualmente está operacional somente o trecho entre Pirapora e Juazeiro/Petrolina. Carece de obras para se conectar ao oceano, são inúmeras hidrelétricas sem eclusas, o que impede a passagem de barcos. Saiba mais no site do DNIT. Um complexo reflorestamento da região próxima ao rio já deveria ter começado para melhorar a situação do Velho Chico.

Já maior hidrovia do Brasil em termos financeiros, sem dúvida alguma, nos merece um espaço especial:

Tietê-Paraná

Estrategicamente cortando ao meio o estado de São Paulo, o rio Tietê, afluente do Paraná, promove umas das melhores rotas de transporte em nosso país. A hidrovia conecta os estados do Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais (Triângulo) e Paraná aos paulistas. Além das 5 unidades federativas diretamente favorecidas, todas grandes produtoras agrícolas, outras, como Rondônia e Tocantins, também utilizam a via. Para eles, é melhor levar a produção até os rios do que levá-la ao litoral, muito mais distante.

CLIQUE PARA AMPLIAR. Hidrovia Tietê- Paraná. De vermelho as barragens sem eclusa. Também de vermelho, mas com um detalhe preto, as barragens com eclusas. Imagem: Internet.

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Somente nos dois principais rios são cerca de 1.700 km navegáveis, sendo 1.023 km no Rio Paraná e 715 km no Rio Tietê. Um sistema de 8 eclusas e inúmeros terminais intermodais, além de um canal artificial, permitem o tráfico fluvial em toda a região. Novas obras em andamento irão ampliar o tamanho da hidrovia. Para quem não conhece, uma eclusa é uma obra que permite a transposição de obstáculos (barragens) pelas embarcações, como se fossem elevadores. Tudo isso ocorre somente enchendo e esvaziando reservatórios. Vejam abaixo.

CLIQUE NO GIF, para ver o funcionamento de uma eclusa. Imagem: Internet.

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Subindo o rio Tietê, em direção ao litoral, a hidrovia chega ao fim pelo tamanho do rio, que fica estreito e raso. Em um dos terminais intermodais, ou seja, local com capacidade de trocar a carga entre transportes diferentes, o produto é colocado em trens que o levam até o porto de Santos. Uma logística que minimiza ou anula o transporte rodoviário. Em exemplo de investimento público que deveria ser exemplo no Brasil.

Na foto, um terminal intermodal próximo a Pederneiras, SP. Observem como ele tem capacidade para transferir a carga dos barcos para o transporte ferroviário. Imagem: Internet.

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No rio Paraná podem ser transportados comboios de até 200 metros de comprimento, já no Tietê 137 metros.  São quase 6,5 milhões de cargas transportadas anualmente, principalmente do complexo soja, milho, areia, cana-de-açúcar, carvão e mandioca.

Embarcação  passando pela eclusa próxima a cidade de Buritama-SP. Imagem: Internet.

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Entre 2014 e 2015 a hidrovia penou com uma seca que atingiu o sudeste brasileiro, ficando interditada para embarcações. Em compensação, ano passado, retornando a ativa, bateu o recorde, transportando incríveis 9 milhões de toneladas. Muito acima da média citada anteriormente. Saiba mais em reportagem do site G1-Globo.

Hidrovia do Paraguai

Principal rio do Pantanal, o Paraguai é navegável de Cáceres, em Mato Grosso, até Nova Palmira, no Uruguai. Somente no Brasil são 1.272 Km. Comporta comboios de até 290 metros, levando soja, arroz, milho e madeira, minérios de ferro e manganês.

Porção navegável do rio Paraguai e seus afluentes no Brasil. Imagem: Internet.

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Uma enorme polêmica ronda o rio Paraguai. Existe um gigantesco projeto de ampliação dessa hidrovia, através de centenas de obras que permitirão o tráfico de barcos e chatas o ano inteiro. Atualmente, durante a seca, a movimentação de cargas cessa. O grande problema são os impactos ambientais.

Não se sabe ao certo, como o Pantanal reagiria a obras de aprofundamento da calha do Paraguai. Seriam obras de dragagens, derrocamento¹ e aumento do ângulo de algumas curvas do rio. Como uma planície inundável, essas obras poderiam modificar o período de cheias, aniquilando o bioma.

Outro grande obstáculo é a integração da hidrovia do Paraguai com a Tietê-Paraná. A hidrelétrica de Itaipu limita essa conexão, já que não possuiu eclusa. Com um desnível de quase 196 metros na barragem, seriam necessárias 4 eclusas e um canal com algo próximo a 12 km para transferir as embarcações da parte alta para a baixa e vice-versa. Não existe a possibilidade de somente um equipamento fazer tamanha transferência, que deve ser gradativa.

Interessante comparação. Como seriam os EUA se a hidrovia Paraguai-Paraná estivesse por lá. Ela é tão grande que atravessaria o país de norte a sul, como o Mississípi faz. De vermelho, Itaipu, o limitador. Imagem: Internet.

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O grande ponto positivo seria a conexão com a Hidrovia Tietê-Paraná, criando a enorme hidrovia Paraguai-Paraná, conectando quase todo o sul do Brasil aos outros países do Mercosul.

A discussão é grande e as análises ambientais ainda insipientes. Temos que ficar atentos, sabemos como o poder do capital fala alto nessas disputas.

Espero ter aumentado seu conhecimento. Curta nossa página no Facebook e compartilhe nosso texto! Abraço do Clebinho!

1 – Derrocamento: É a retirada de material do fundo do rio, que não é oriundo de assoreamento, ou seja. o material que compõe naturalmente o leito do rio, que pode ser pedregoso ou não.

Publicado em 20.11.2017

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