194. Guerra de Canudos (1896-1897)

Um dos momentos mais selvagens da história do Brasil ocorreu no sertão nordestino. Envolveu os principais ingredientes presentes em grande um conflito: Pobreza, desigualdade social, politicagem, fanatismo religioso, seca, e tantas outras mazelas.

Percebendo que inúmeras pessoas possuem parco conhecimento sobre o assunto, nosso blog abraça esse terrível acontecimento, lembrando que grande parte das causas, ainda no século XXI, perduram em nossa sociedade.

Tudo começa com a fantástica história de um errante, um nômade:

Antônio Conselheiro

Antônio Vieira Mendes Maciel, seu nome de batismo, nasceu em 1830, na cidade de Quixeramobim, interior do Ceará. Filho de uma família de classe média, teve uma formação que era privilégio para poucos na época, incluindo línguas estrangeiras e até mesmo o latim, além de matemática e geografia.

Ao longo da vida, teve que lidar com algumas perdas importantes. Aos seis anos de idade perdeu sua mãe e aos vinte e sete o pai. Em 1861 o fato que mudou sua vida, flagrou a traição de sua esposa e nunca mais se recuperou. Humilhado, abandonou tudo que tinha e iniciou um longo período de peregrinação pelo sertão nordestino.

Cena do filme “Guerra de Canudos”, com José Wilker no papel do beato. Só existe uma foto real de Antônio Conselheiro, ainda assim, já morto. Imagem: Internet.

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Sujo e maltrapilho, infestado de piolhos, vagou por várias cidades e lugarejos pregando mensagens bíblicas. Ao longo dos anos, foi se tornando uma figura folclórica em toda a região. Notícias de milagres produzidos pelo agora Antônio Conselheiro, apelido dado pelos conselhos que dava a população, começaram a povoar o imaginário do pobre e religioso povo do sertão.

A pergunta que todos se faziam: Que homem é esse, mesmo tão malvestido e sujo, fala tão bem assuntos que tocam o coração e a mente humana?

Após uma grande seca, em 1877, a situação piorou e começaram a chama-lo de “Bom Jesus”, profeta enviado por Deus para salvá-los. Inúmeros esquecidos passaram a seguir Antônio Conselheiro, grupo que teve enorme aumento com o fim da escravidão em 1888. Ex-escravos, libertos e expulsos das fazendas, partiam em busca do mito dos sertões.

Naquele momento da história o “profeta” já era tido como um fora da lei, alguém que causava medo aos grandes latifundiários, devido ao exército de desprovidos que havia construído. A temática das falas de Conselheiro era justamente contra as injustiças cometidas contra os mais pobres. As elites locais o viam como um subversivo, alguém perigoso, com potencial para mudar o status quo da época.

Arraial de Canudos

Exaurido após mais de 3 décadas de peregrinação, já tendo um enorme número de seguidores, Conselheiro resolveu se fixar no interior da Bahia, nas margens do Rio Vaza-barris, em um pequeno arraial chamado Canudos.

Local do Arraial de Canudos, no interior da Bahia, próximo a Sergipe. Imagem: Internet.

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Naquele local nasceu a experiência de autogestão mais fantástica da história brasileira. Denominada “Belo Monte” por Conselheiro, recebia de braços abertos vítimas da seca, ex-escravos, índios, e qualquer um em busca de ajuda física e espiritual.

A comunidade se baseava na igualdade entre os membros e era focada na religiosidade emanada pelo profeta, que escreveu os “Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a Salvação dos Homens”, uma espécie de reflexões sobre a vida e espiritualidade, um manual de boa conduta e aprendizados. A ideia era a solidariedade como forma de libertação. Os maradores sobreviviam do que plantavam e tudo era coletivizado.

Desenho de como era o Arraial de Canudos. Imagem: Internet.

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Mais uma vez o beato Conselheiro afetava os coronéis e as elites estabelecidas, dando ao sofrido povo nordestino uma nova oportunidade, não precisando mais se sujeitarem aos maus-tratos nas fazendas. Isso afetava a mão de obra e o lucro dos fazendeiros.

O Sobressalto das Elites

As oligarquias locais e a Igreja Católica se uniram, pedindo ao Governo Federal uma intervenção imediata em Canudos. Os religiosos viam em Conselheiro uma ameaça a religião formal que praticavam.

Desenho representando Antônio Conselheiro. Imagem: Reprodução/Raimundo Arcanjo Blog

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Foram espalhados rumores, nunca confirmados, que os moradores de Canudos estavam se armando para atacar propriedades e cidades vizinhas. Além disso, o fato de Canudos prosperar, se tornando uma espécie de república a parte no Brasil, incomodava de sobremaneira o governo do presidente Prudente de Morais, já citado em nosso blog. Seria terrível, na visão federal, inúmeras aglomerações como aquela se espalhando pelo país, já que em nada contribuíam com impostos, além de possuírem leis próprias. Para completar, diziam que os moradores de Canudos eram fanáticos religiosos favoráveis a volta da monarquia.

Dado aos interesses das elites, fazendeiros, igreja e políticos, frente a uma experiência que vinha dando algum resultado, o confronto era iminente.

A verdade é que: OS GOVERNOS NUNCA SE PREOCUPARAM COM O POVO POBRE DO SERTÃO, MAS SE PREOCUPARAM COM CANUDOS. UMA COVARDIA.

Guerra

Em outubro de 1896, um carregamento de madeira havia sido comprado e pago pelos moradores de Canudos e estava em Juazeiro. O primeiro a agir foi o governo estadual baiano, enviando uma tropa de 100 homens para a região no aguardo de quem viria buscar a carga. Corria a história que homens armados vindos do arraial chegariam, fato que acabou não ocorrendo.

A milícia então começou a se descolar em direção a Canudos, sendo interceptada por alguns de seus moradores armados, liderados por Pajeú e João Abade. Após uma batalha e várias mortes, as seguidores de Antônio Conselheiro repeliram esse primeiro ataque.

Os seguidores de Antônio Canselheiro resistiram tanto porque lutavam pela vida, por um sonho, não tinham muito a perder sem Canudos. Imagem: Internet.

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Em janeiro de 1897 uma nova incursão, dessa o contingente era de 250 homens, certos da vitória. Também foram repelidos pelos moradores de canudos que lutavam bravamente.

As histórias de um Arraial rebelde e monarquista chegaram ao Rio e apavoram o Governo Federal, que assume a missão.  Uma terceira e imensa incursão foi liderada pelo coronel Antônio Moreira César, conhecido como “corta cabeças”, devido a forma brutal como havia resolvido a Revolução Federalista em Santa Catarina. Incrivelmente, também falharam, tendo o próprio líder da expedição sido morto. Um desastre para o Governo no Rio de Janeiro.

Uma nova derrota seria inadmissível. Na visão governamental, Canudos deveria ser um exemplo para qualquer outra tentativa do mesmo tipo. Uma quarta missão foi convocada, dessa vez com duas colunas de soldados, contendo 4 mil homens cada.

Única foto conhecida de Antônio Conselheiro, morto em meio ao conflito. Imagem: Internet.

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Não tendo como resistir, foi o fim de um sonho, uma tentativa frustrada de vida melhor. Cerca de 25 mil pessoas foram mortas, inclusive crianças e mulheres já rendidos. O maior crime já cometido em território nacional.

O governo comemorou a vitória, mas por pouco tempo. Alguns anos depois as notícias do massacre chegaram ao público mais esclarecido, gerando uma onda de críticas ao uso de tamanho violência. O grande responsável por trazer a realidade a tona foi Euclides da Cunha, em 1902, através do livro Os sertões. O escritor presenciou os momentos finais do conflito como correspondente do jornal O Estado de São Paulo.

Em 1968, em pleno Regime Militar,  o governo brasileiro edificou uma barragem que inundou todo o sítio onde ocorreu a batalha de Canudos. Existem suspeitas que o ato tenha sido proposital, para apagar a história da resistência no local. Como a natureza é dinâmica, em 2013, uma seca expôs novamente as ruínas do arraial, confiram no site G1.

Infelizmente, a história parece não ter mudado tanto assim, vemos hoje milhões de esquecidos pelo Brasil, só notados quando, de alguma forma, incomodam as elites.

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Publicado em 19.03.2018

 

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