198. Inconfidência Mineira

No final do século XVIII o Brasil ainda era colônia de Portugal. Assim como todo local subjugado, sofria com os desmandos do colonizador. Com uma população já empobrecida, em 1785 uma lei deteriorou ainda mais o cenário, determinando o fechamento de manufaturas por aqui, obrigando nossa população a só comprar produtos importados. A insatisfação era geral.

Foto atual de Ouro Preto, antiga Vila Rica, que ao longo do século VXII chegou a ser a cidade mais populosa da América Latina, com 70 mil habitantes. Imagem: Monique Renne.

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Nosso país estava em pleno ciclo do ouro. O metal era nosso produto mais importante e indispensável para a economia de Portugal. . Minas Gerais se destacava como o grande polo de extração, e sua capital, Vila Rica, era uma das cidades mais importantes do mundo.

A Coroa Portuguesa estava atenta, todos os brasileiros que encontrassem ouro deveriam pagar o quinto, que, como o próprio nome já diz, representava 20% do total explorado. Fazendo um paralelo com a atualidade, onde pagamos até 27.5% de imposto de renda, naquela época éramos menos taxados.

Para assegurar que nenhum ouro circulasse sem que Portugal recebesse sua parte, foram aumentadas as fiscalizações e criadas rotas demarcadas para o transito do mineral, hoje conhecidas como estradas reais.

As Estradas Reais, e as cidades existentes em seus caminhos,  formam hoje um grande polo de turismo em Minas Gerais e outros Estados. Imagem: Internet.

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Assim que o ouro fosse retirado, o minerador deveria levá-lo imediatamente a Casa de Fundição, onde era limpo, transformado em barras e gravado com um selo real. Era o ouro quintado, ou seja, Portugal já havia retirado sua parte. Além disso, um certificado garantia ao mineiro que sua situação estava legal. Portar ouro sem esses documentos ou tentar outros caminhos não-oficiais eram considerados crime de lesa-majestade, gravíssimos.

Ouro quintado, com as marcas da coroa portuguesa. Imagem: Internet.

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Segundo uma antiga lenda em Minas Gerais, alguns clérigos e mineradores tentavam passar pelas fiscalizações levando ouro ou pedras preciosas dentro de imagens santas. Daí a origem do termo “santo do pau oco” para designar alguém dissimulado.

No início, achavam que imagens sagradas nunca seriam destruídas para se saber o que existia dentro, por isso enchiam algumas com ouro ou pedras preciosas. Depois esse procedimento foi descoberto e amplamente divulgado. Imagem: Internet.

Derrama

Desde 1751, além do quinto, existia um dispositivo fiscal denominado “derrama“.  Por esta lei, Minas Gerais deveria pagar anualmente 100 arrobas de ouro, cerca de 1. 500 quilos por ano, a coroa portuguesa. Caso não conseguisse, soldados do império invadiriam as casas dos “homens bons”, políticos locais da época, e pegariam bens até que o valor fosse alcançado. Até mesmo propriedades inteiras poderiam ser confiscadas.

Até 1766 a cota foi paga, entretanto, com o ouro escasseando devido a brutal exploração, Minas não conseguiu mais cumprir a meta. Uma dívida com a Coroa teve início, deixando os mineiros em sobressalto. A qualquer momento o montante que se avolumava poderia ser cobrado.

Entre 1788 e 1789 a situação chegou ao limite, começaram a circular rumores que Portugal, enfim, colocaria a derrama em prática.

O Movimento

O clima estava tenso. Reuniões entre proprietários de terras, padres, poetas, militares, mineiros entre outros, começaram a ser realizada com o objetivo de se ver livre de Portugal. O pagamento de impostos abusivos e a derrama não poderiam ser mais aceitos. Como naquele momento ainda não existia uma noção de brasilidade, a ideia era conquistar a independência de Minas Gerais.

A bandeira atual do Estado foi baseada em uma produzida pelos inconfidentes.

A bandeira dos inconfidentes continha um triângulo, que representava a Santíssima Trindade, e a frase “Liberdade ainda que tardia”, em latim. O detalhe era a cor verde. Séculos mais tarde o vermelho substituiu por representar melhor o ideal revolucionário. Imagem: Internet.

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Como a maioria dos inconfidentes vinha de uma classe mais abastada, vários deles tiveram a oportunidade de estudar na Europa, conhecendo mais de perto as ideias iluministas francesas, base da conspiração.  Por outro lado, muitos livros didáticos ensinam que a Inconfidência Mineira foi um ato de heroísmo e patriotismo. Mas não foi bem assim. Foram articulações de grande coragem, entretanto, a preocupação central não era libertação das pessoas ou melhorias sociais, mas sim a perda de suas posses.

A ideia de liberdade e independência era uma forma de se proteger da famigerada cobrança portuguesa e não necessariamente melhorar a vida de todo o povo.

Dando razão ao nosso blog, a ideia do fim da escravidão nunca se mostrou clara nos ideais dos inconfidentes. Era uma concepção ainda muito distante. Somente um século mais tarde os negros conquistaram a liberdade no Brasil. Vergonhosa demora.

Pintura retratando uma reunião do que ficou posteriormente conhecida como a Inconfidência ou Conjuração Mineira. Imagem: Internet.

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Os principais inconfidentes foram:

Joaquim José da Silva Xavier (alferes),  Claudio Manuel da Costa (poeta), Inácio José de Alvarenga Peixoto (advogado), Tomás Antônio Gonzaga (poeta), Francisco Antônio de Oliveira Lopes (coronel), Francisco de Paula Freire de Andrade (coronel), Carlos Correia (padre) e Oliveira Rolim, também chamado de Padre Rolim. Muito se fala que a maioria deles era maçom, veja a participação dessa associação na Inconfidência Mineira através site maçonaria.net.

Moradores de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, conhecem muito bem esses nomes, já que vários deles designam importantes ruas e praças da cidade. Além de existir no badalado bairro Funcionários a rua dos Inconfidentes.

A forma de governo escolhida para o “país” Minas Gerais seria a república, influenciados pelo Iluminismo francês e a Independência dos EUA em 1776.

Em 1789 a tão esperada notícia chegou a Vila Rica. A coroa portuguesa havia  resolvido aplicar a derrama em Minas Gerais. Entre os inconfidentes estava tudo acertado, no dia da cobrança seria iniciada uma revolução armada,  tomando pontos importantes das principais cidades e, com a ajuda popular, expulsar a influência portuguesa da região.

Como vários conspiradores eram militares, a ideia era plausível.

Contra-ataque português

Compreendendo que algo estava acontecendo na região em que era governador, Luís Antônio Furtado de Mendonça, 6º Visconde de Barbacena, mandou suspender a derrama em 14 de março de 1789.

Foi uma decisão estratégica, sem a cobrança abusiva parte da elite simplesmente perdeu a vontade de lutar.

O ator Xando Graça interpretou Visconde de Barbacena na novela “Liberdade, liberdade”, exibida pela Rede Globo. Ele foi o governador que desbaratou a Inconfidência Mineira. Pelas poucas imagens que conhecemos dele, lembra bastante. Foto: Felipe Monteiro / Gshow

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O Visconde não parou por ai e maquiavelicamente deu benesses a quem entregasse os membros da insurreição. No dia seguinte ao anúncio, com o movimento esvaziado, os líderes foram delatados por  Joaquim Silvério dos Reis, o judas de toda a história, Basílio de Brito Malheiro do Lago e Inácio Correia Pamplona. Fizeram isso em troca do fim de suas dívidas com a coroa. Mais uma vez o dinheiro falou mais forte.

A partir daí todo a trama foi desmantelada, seus líderes foram presos e julgados. Todos os detidos negaram participação no movimento, exceto um, herói nacional e tema de nosso próximo texto.

Espero ter aumentado seu conhecimento. Curta nossa página no Facebook e compartilhe nosso texto! Abraço do Clebinho!

Publicado em 25.04.2018

2 comments to “198. Inconfidência Mineira”
  1. Você se esqueceu de mencionar alguns atores da Inconfidência Mineira, como por exemplo, Marília de Dirceu, Bárbara Heliodora e o financiador da inconfidência mineira e uns dos conspiradores da elite, considerado o inconfidente secreto, o comendador de Ouro Preto, homem de confiança da Coroa portuguesa, José Ruiz de Macedo

    • A Bárbara Heliodora nunca foi citada no processo, entretanto, tudo indica que ela participou incentivando seu marido, Alvarenga Peixoto. Já Marília de Dirceu é uma obra literária de Tomás Gonzaga.

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