229. Revolta dos Malês e Cabanagem

APOIO : Colégio Cotemig

Em nosso último texto mergulhamos em um dos momentos mais tumultuados da história brasileira. Dentro desse período, denominado Regência, uma série de revoltas eclodiram no Brasil, colocando em risco até mesmo nossa unidade territorial. Os próximos textos desvendam cada um dos levantes.

Revolta dos Malês (De 24 para 25 de Janeiro/1835)

Foi uma revolta ocorrida na cidade de Salvador, alimentada pela pobreza, escravidão e intolerância religiosa.

Para entendermos essa revolta, a primeira da Regência, temos que ter em mente que a transferência da capital para o Rio de Janeiro (1763), somada a problemas na produção de açúcar, trouxeram um momento de grande decadência para a capital baiana. Problemas econômicos, escravidão, um abismo social, todos esses fatores contribuíram para o problema.

Uma variedade de etnias islâmicas foram escravizadas e trazidas para o Brasil, em especial os nagôs e  haussás. Eram diferentes dos outros escravos, já que eram alfabetizados, para que pudessem ler o Corão. Com esse diferencial, viviam nas cidades e faziam trabalhos ligados ao comércio, diferente dos escravos rurais.

Esse grupo passou a ser chamado de “Malês”, nome derivado da palavra “imalê”, que na língua deles, iorubá, significa muçulmano.

Além da violência física e sexual, os escravos islâmicos eram proibidos de professar sua própria religião. A mesquita onde rezavam foi destruída por autoridades locais. Sem conexão alguma com o Brasil e com uma educação formal maior que o escravo comum,  passaram a planejar um grande levante em Salvador.

Calçadores, de Jean-Batist Debret (1768-1848). Escravos de ganho, como eram chamados os malês, trabalhavam nas cidades, em atividades que dependiam de força e algum conhecimento. Foram eles que arquitetaram a agitação em Salvador.

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No dia 25 de janeiro de 1835, durante uma festa na cidade vizinha de Bonfim, que esvaziou as ruas de Salvador, cerca de 1.500 escravos se rebelaram, partindo para cima das forças policiais.

Alguns objetivos do levante eram tremendamente nobres, como o fim da escravidão e do racismo. Entretanto, outros planos tinham como base a apropriação de bens de brancos e mestiços. A ideia era criar uma república negra, africanizada e islâmica.

Pintura retratando o momento da revolta dos Malês. Imagem: Internet.

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Os os malês saíram as ruas portando facões e facas, o objetivo era tomar a cidade. O detalhe é que o plano estava corrompido, já que foi sabotado por alguns participantes que delataram o plano na noite anterior. As forças policiais controlaram a situação em menos de 24 horas,  levando os líderes do movimento, que foram julgados e condenados a morte.

Infelizmente, após o levante uma forte repressão teve início contra negros e mestiços em Salvador. Os muçulmanos foram obrigados a mudar de religião, ou, no mínimo, esconder sua opção. Também foram proibidos de sair às ruas de noite. Vários foram deportados de volta a África, diminuindo a influência da rica cultura africana por aqui.

Naquele momento, Salvador era uma cidade com 65 mil habitantes, desses, 40% eram escravos. A revolta falhou, mas uma forte mensagem foi passada aos governantes. Não era possível continuar da forma como estava.

O levante falhou mas abriu espaço para se discutir a abominável prática de escravidão, meio século mais tarde abolida no Brasil.

Cabanagem ou Guerra dos Cabanos (Jan/35 a Ago/40)

Foi a precursora entre as grandes revoltas ocorridas na Regência, deflagrada durante o governo de Feijó.

Como eram a maioria das casa do Grão-Pará neste momento da história. Imagem: Internet.

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Nesse momento histórico, a população da província do Grão-Pará (praticamente toda a região Norte de hoje) se sentia completamente excluída do restante do país. A pobreza era generalizada e as pessoas morriam de doenças. A fome era uma constante em suas cabanas e palafitas a beira dos rios.

As próprias moradias inspiraram o nome “cabanos”, por consequência, cabanagem, que nomeou o conflito. Mestiços e índios em sua maioria, sentiam-se abandonados pelo governo brasileiro.

Observem o enorme tamanho da província do Grão-Pará. Imagem: Internet.

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Sem dúvidas, um grande descaso por parte do governo federal era nítido em relação aos pobres moradores das margens do rio Amazonas e seus afluentes.

Se atualmente a região ainda é distante do núcleo econômico do Brasil, em termos literais, sociais e econômicos, no século XIX era muito mais.

Naquele momento da história, até mesmo Minas Gerais estava relativamente longe da capital Rio de Janeiro. O Grão-Pará foi um dos últimos locais a se integrar de forma plena ao Brasil Império, já que tinha muito mais contato com Lisboa do que com o Rio de Janeiro. A noção de Brasil era algo ainda superficial no norte do país.

A situação já era complexa, para piorar, o regente do Brasil escolheu para a província um governante que desagradou a elite local, que queria maior participação no comando da região.

Todos os ingredientes para uma revolta estavam presentes, e foi isso que aconteceu.

A Luta

Os latifundiários Félix Malcher e Francisco Pedro Vinagre foram muito importantes para que o Grão-Pará se juntassem ao Brasil e, quando isso se consolidou, foram esquecidos pelo governo regencial. Isso explica bastante o que os motivou a liderarem uma frente contra as forças imperiais.

Em agosto de 1835, liderados pelos dois fazendeiros, os cabanos pegaram armas e tomaram a capital Belém. Uma das primeiras providências foi matar o presidente da província, Bernardo Lobo de Sousa, homem fiel ao governo do Rio de Janeiro e que tentava, pela força, sufocar qualquer habitante que se opusesse a ele.

Ilustração mostrando os cabanos (de chapéus de palha) lutando contra as forças imperiais e mercenários. Imagem: Internet.

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Problemas Internos

Tomar o Grão-Pará e se separar do Brasil não era algo banal. Malcher foi nomeado presidente da província, mas por ter traído o movimento, através de acordos com o governo regencial, foi morto e trocado por Francisco Vinagre, mais a frente substituído por Eduardo Angelim.

A revista Aventuras na História já trouxe Eduardo Angelim em sua capa, o líder do movimento cabano. Imagem: Internet.

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A própria falta de coesão dos revoltosos, com diferentes visões e objetivos, enfraqueceu o movimento. Os mais pobres queriam uma vida digna, a elite queria o comando da região. Sinceramente, algo não muito diferente dos objetivos atuais no Brasil. Lutas pela liderança do movimento e traições foram comuns.

Com apoio de mercenários ingleses e 4 navios das forças imperiais, o governo brasileiro retomou o controle do local em 1836. Dispersados, os cabanos continuaram lutando por mais 4 anos, até 1840, quando se renderam.

Uma carnificina foi praticada na região. De uma população de 90 mil habitantes, cerca de 40 mil foram mortos pelas forças brasileiras.

Próximo texto

Nosso próximo post traz a Revolução Farroupilha, a maior entre todas da Regência.

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