69. Transgênicos, Brincar de Deus?

Em nosso último texto, abordamos o uso exagerado de agrotóxicos no Brasil. Nosso tema de hoje continua no campo, em um assunto provavelmente mais polêmico que o anterior, os transgênicos.

Transgênicos

São organismos, seres vivos modificados geneticamente para apresentarem vantagens em relação ao ser original. O novos organismos modificados em laboratório tem seu código genético  adulterado através da  introdução de uma ou mais sequências de DNA (genes), provenientes de uma outra espécie. Parece ficção científica, mas é uma realidade cada vez maior e presente em qualquer supermercado.

Por meio de um ramo de pesquisa relativamente novo (a engenharia genética), fabricantes criam sementes resistentes a agrotóxicos, com crescimento maior, mais rápido, mais nutritivas, e, em alguns casos, resistentes a algum agressor.

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O algodão colorido é um melhoramento genético. Não chega a ser um transgênico mas é um exemplo de como a genética vem evoluindo. Veja mais no site da Embrapa.

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A empresa Norte-americana Monsanto é uma das maiores referências na agricultura e biotecnologia. Conheça mais a empresa no site Wikipedia. Por outro lado, também é uma das mais criticadas por causa dos transgênicos e seus experimentos. Veja uma polêmica envolvendo a empresa no site Esquerda.net.

Como tudo começou?

Tudo teve início em 1972, a partir da descoberta do comportamento da Agrobacterium timafasciens, causadora de uma doença chamada galha de coroa. A bactéria insere parte dos seus genes na planta hospedeira, fazendo com ela passe a produzir um tumor que fornece alimento para a bactéria. Essa transgenia natural deu o pontapé inicial aos estudos.

Atualmente

Hoje, este ramo biotecnológico está bastante avançado. Um exemplo de como andam as pesquisas é o fato de já conseguirem introduzir genes inseticidas em plantas. Desta forma consegue-se que a própria planta possa produzir resistências a determinadas pragas da lavoura. Este mesmo procedimento pode ser reproduzido contra uma infinidade de agressores.

São infinitas as possibilidades dos organismos geneticamente modificados nos dias de hoje. Pode-se combinar genes entre uma variedade incrível de seres vivos. Uma das modificações mais famosas dos últimos anos foi Arroz Dourado. O grão possui gene do milho e de uma bactéria, o que faz dele rico em vitaminas e betacaroteno. Pode ser a solução para milhares de pessoas na Ásia, com dieta baseada em arroz, mas escassa em vitamina A. Conheça mais em relação a este fato no site da Revista Carta Capital.

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Comparação visual entre o arroz comum (a esquerda) e o arroz dourado (a direita). Imagem retirada da internet.

Crescimento avassalador

Os ganhos nas lavouras promovidos pelos transgênicos são indiscutíveis, fazendo que o uso deste produto esteja em franco crescimento em vários países. No Brasil, os transgênicos já  estão presentes nas laranjas, soja, milho, algodão, banana, alface, feijão, entre outros. Segundo pesquisas, mais da metade da área plantada no Brasil já é modificada. Saiba mais no Site Jornalismo Online.

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Os 3 principais produtos agrícolas com uso de transgênicos no Brasil. Nosso país é o 2º do mundo no uso de transgênicos, perdendo apenas para os EUA.

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T obrigatório nas embalagens de transgênicos.

Em 2005, foi aprovada  a Lei de Biossegurança Nº 11.105, regulando o uso de  transgênicos no Brasil. O detalhe é que, se existir a participação de OGM (Organismos Geneticamente Modificados) em pelo menos 1% do produto, deve estar presente em sua embalagem um selo com a letra T. Seja mais observador e perceberá que alguns produtos do nosso dia a dia possuem esta marca.

O problema é que com a falta de fiscalização, algumas empresas não colocam o selo, prejudicando a escolha do consumidor. Existem também alguns projetos de Lei com o objetivo de se retirar a obrigatoriedade do selo. O Congresso em algum momento irá decidir sobre este assunto e, com a  bancada ruralista em cima, corre o risco desta nefasta lei passar.

Polêmica, o lado negativo

Como toda novidade, os transgênicos causam muitas discussões e polêmicas. Coletei as 5 maiores probabilidades de problemas advindos dos OGM:

  • Como algumas sementes OGMs são resistentes a insetos, pode ocorrer um desequilíbrio na natureza, já que, a diminuição desses insetos pode levar a diminuição de pássaros, seus predadores, que também caçam outros insetos, que irão aumentar, bagunçando assim toda a cadeia alimentar;
  •  Como alguns OGMs são resistentes a agrotóxicos, pode haver uma maior aplicação dos venenos, que não afetará a  planta. O problema é que nós, consumidores, poderemos ser afetados ao nos alimentarmos;
  • Não é possível separar as culturas convencionais das transgênicas, pois os grãos de pólen podem percorrem distâncias na ordem dos Km , sendo possível haver uma disseminação dos grãos de pólen das plantas modificadas para as plantas naturais. Seria a contaminação da natureza pelo DNA de um ser vivo não natural. A médio prazo, poderemos não ter mais o ser vivo original na natureza.
  • Um dos maiores problemas é a questão das alergias. Como são alimentos inéditos na natureza, não se sabe exatamente o que podem provocar em quem os consumir;
  • Como alguns OGMs são resistentes a determinadas bactérias,  podem provocar um fortalecimento nas mesmas, criando uma seleção natural e uma colônia de bactérias mais fortes.
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Chamados produtos-T. Por hora, ainda não existe nenhuma prova de que os transgênicos fazem mal ao ser humano. Imagem: Site 350.org

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A grande verdade é que os transgênicos trouxeram grandes avanços para a produção de alimentos e podem ser a solução para a fome mundial nos países mais pobres. Por outro lado, também criaram grande controvérsia com os ambientalistas, por produzir algo não natural, podendo desequilibrar o meio ambiente, já tão devastado por nós.

Uma das ONGs ambientalistas mais famosas e atuante do mundo é totalmente contra, veja mais no site do Greenpeace sobre o assunto.

Seria a prática de criar Organismos Modificados Geneticamente uma forma de brincar de Deus? Fabricando e cruzando genes de espécies diferentes? Criando seres nunca vistos na natureza?

A resposta definitiva vai demorar um bom tempo para ser encontrada, por enquanto ficamos na discussão. É fácil provar que um alimento faz mal, pois as pessoas apresentam problemas, por outro lado, provar que não faz  mal algum é difícil, demora anos de observação, testes e  pesquisas.

Espero ter aumentado seu conhecimento.  Curta nossa página no Facebook e compartilhe nosso texto! Abraço do Clebinho!

Publicado em 16.09.2015

 

 

9 comments to “69. Transgênicos, Brincar de Deus?”
  1. Particularmente acho que os testes com transgenicos, se afetam ou nao na cadeia e na natureza assim como nos humanos deveriam ser feitos em locais controlados, não abertamente, já que uma espécie nova poderia tomar o espaço da antiga a longo prazo. O que você acha de transgênicos Clebinho?

    • Particularmente acho os transgênicos benéficos, sou sempre a favor dos avanços tecnológicos. Agora, devemos tomar cuidado com os efeitos, testes mais sérios, de longa duração, devem ser feitos para realmente se confirmar que os OGM não fazem mal aos seres humanos.

    • Lucas, antes de uma planta transgênica ser liberada para plantio ela percorre um longo caminho de avaliação, que começa em laboratório, passa para a casa de vegetação (telada), só então é ensaiada em campos, mas de forma muito controlada e depois de 3 a 7 anos, pode ser liberada para plantio comercial, se os riscos avaliados assim o permitirem. Nada a liberado sem este trajeto longo (e caro) de avaliação de risco.

  2. Professor, bom dia.
    Com o intuito de contribuir para o fortalecimento do lado científico de sua postagem, vou tecer alguns comentários.
    a) a figura do algodão colorido não está bem escolhida: ele não é transgênico.
    b) os pontos contrários, pinçados de diversos sites da internet, de fato mostram a polêmica em torno dos transgênicos, mas à falta de um texto comentando do ponto de vista científico as críticas aos transgênicos, o leitor acaba sem saber qual é a posição embasada no conhecimento gerado pelos milhares de cientistas que trabalham nesta área há duas décadas. Por isso vou comentar alguns pontos, usando o que sabe a ciência sobre eles.
    b1) Plantas transgênicas resistentes a inseto e desequilíbrio ecológico – as culturas que mais empregam a transgenia para resistência a inseto são o milho, o algodão e a soja. As pragas destas culturas são lepidópteros que só atingem grandes números nos extensos campos de milho, soa ou algodão. Por si só isso nada tem a ver com um processo natural: os pássaros e outros predadores de insetos existem e sempre existirão em equilíbrio com a Natureza nas áreas que não foram profundamente modificadas pelo homem, como os campos de monoculturas. Acreditar que o controle de pragas nestes campos vai ameaçar espécies nativas ou de predadores é inteiramente irreal.
    b1) transgênicos e agrotóxicos – embora muitas plantas transgênicas sejam tolerantes aos agrotóxicos, elas não podem tomar “banhos de herbicidas”: apenas resistem o suficiente para que a dose aplicada mate a erva daninha que está por baixo da plantação. O aumento de uso de agrotóxicos para a soja resistente a herbicida é, por exemplo, de apenas 15% (veja detalhamento em http://genpeace.blogspot.com.br/2015/08/ainda-os-agrotoxicos-e-os-transgenicos.html) .
    b2) Coexistência entre plantas transgênicas e convencionais – Não existe pólen algum no mundo que trafegue 100 km esse mantenha viável. Na verdade, as distâncias efetivas de polinização são muito bem conhecidas: para a soja, 2m, para o milho 50 m, e para o algodão, duas centenas de metros. O pólen da soa pode chegar, viável a 200 m, mas a probabilidade de que um cruzamento deste tipo aconteça é muito reduzida. O do algodão pode, igualmente, chegar a 400 m, mas outra vez é altamente improvável que ele cruze com outro milho nesta distância, que provavelmente cruzará com um pé de milho vizinho. Idem para o algodão, mesmo sendo polinizado por insetos. Se fosse verdade que as distâncias de polinização são tão grandes, não seria possível produzir sementes, manter identidade de cultivares e tudo aquilo que ocorre rotineiramente na agricultura. Este item da postagem é de uma fantasia absurda.
    b3) transgênicos e alergias – é evidente que os órgãos avaliadores (CTNBio, no Brasil, e seus congêneres pelo mundo – EFSA europeia, FDA americano, OGTR australiano, Health Canada, etc) estudam a possibilidade das novas proteínas expressas pelas plantas transgênicas provocarem alergias. Isso é feito de forma muito simples e rápida usando um banco de dados com milhares de alérgenos já descritos e buscando por similaridades de octapeptídeos com ferramentas de bioinformática. Não á qualquer transgênico no mercado que tenha a mais mínima evidência de expressar um alérgeno novo. Além disso, as proteínas “novas” não são novas: as proteínas Bt, por exemplo, são consumidas por nós nos produtos orgânicos e da agricultura convencional faz muito tampo. As outras também aparecem na nossa dieta, embora não no milho ou na soja.
    b4) transgênicos resistentes a bactérias – ainda não estão no mercado (infelizmente). De todaa forma, o mecanismo de resistência provavelmente será muito diferente daqueles que conferem resistência em mamíferos…
    b5) brincando de Deus – os OGMs que estão no mercado, sejam eles bactérias, fungos, animais ou plantas, só diferem de seus parentais não transformados por um punhado de genes (em geral um só…). Não são de fato “organismos que não existiam na Natureza”, mas no máximo variedades que não existiam antes. Não tem nada de diferente do melhoramento genético que a humanidade vem fazendo há mais de 70 séculos. Basta ver o tanto que os Maias modificaram o milho e os asiáticos a banana, a ponde de hoje não sermos capazes de reconhecer o ancestral silvestre de muitas de nossas plantas (e animais) cultivados.
    Cordialmente,
    Paulo Andrade, professor de genética

    • Paulo, excelente participação. Você tem toda razão em alguns pontos, realmente para montar meus textos, busco pincelar vários site, exatamente para não correr o risco de citar uma única fonte. Como professor de Geografia, meu conhecimento sobre os transgênicos não é tão aprofundado dado a grande massa de outras matérias que temos que estudar. Obviamente o seu conhecimento sobre o tema é muito maior que o meu e sua contribuição foi ótima para o blog. Só vale ressaltar que nenhum ponto no texto é opinião minha e sim de especialistas de vários sites. O algodão que você se referiu foi tema de uma reportagem que está anexada na foto, portanto acredito ser verdade. Continue acompanhando nosso blog, foi uma honra ter seu comentário por aqui.

    • Outra coisa Paulo, você mesmo afirmou que após os uso de transgênicos ocorreu um aumento de 15% no uso de agrotóxicos, eu acho este número bastante alto, por isso o Brasil é o país com maior uso destes venenos.

  3. Clebio, o algodão colorido foi desenvolvido pela EMBRAPA faz muitos anos. A história está aqui: http://ccw.sct.embrapa.br/?pg=bloguinho_default&codigo=146, numa linguagem bem simples. Já os algodões transgênicos têm que passar pela CTNBio. As variedades que temos no Brasil são tolerantes a algum herbicida ou resistentes a inseto ou uma mistura das duas características. Você pode ler os pareceres técnicos sobre a liberação destes algodões aqui: http://www.ctnbio.gov.br/index.php/content/view/14783.html.
    Quanto ao aumento de consumo de herbicidas, os 15% são só para a soja tolerante a herbicida, não para as variedades resistentes a inseto ou a outros cultivos tolerantes a herbicida. Não tenho uma tabela para milho ou algodão, mas seguramente o aumento de uso é menor. É verdade que nosso país quase dobrou o uso de agrotóxicos em 10 anos e que somos um dos principais consumidores, mas não somos os que mais usam agrotóxico por hectare plantado, de jeito nenhum: Japão e EUA, por exemplo, estão na nossa frente. Além disso, este aumento é global, isto é, para todos os agrotóxicos, e não apenas para herbicidas. A acusação de que o aumento no uso dos agrotóxicos (2X em 10 anos) é devido aos transgênicos (que aumentaram 10 X em 10 anos), que lemos com frequência em blogs e portais da internet, é falso por várias razões, inclusive a conta da tabelinha que comentei. Há alguns comentários sobre este tema no nosso blog:
    http://genpeace.blogspot.com.br/2015/08/agrotoxicos-e-transgenicos-sinopse-de.html
    http://genpeace.blogspot.com.br/2015/08/ainda-os-agrotoxicos-e-os-transgenicos.html
    http://genpeace.blogspot.com.br/2015/08/desmascarando-ligacao-entre-aumento-do.html

    Cordialmente,
    Paulo Andrade

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