23. Goiânia, Uma Cidade Radioativa

O Brasil não está de fora do hall de países que já sofreram algum acidente radioativo. Em nosso caso, não foi em uma usina, foi algo bem mais cotidiano, muito próximo a nós e, por isso, com chances de acontecer novamente. Para que não ocorra de novo, precisamos entender o que ocorreu.

Início do problema

Em 1987, um ano após Chernobyl, um aparelho radiológico foi encontrado, por catadores de lixo, em um hospital abandonado no centro de Goiânia, capital de Goiás. Nenhum aparelho que utiliza materiais radioativos pode ser descartado ou deixado abandonado dessa forma. Assim como o lixo hospitalar, esses produtos devem ter um recolhimento e destinação próprios.

O Instituto Radiológico de Goiânia (IRG) funcionava no centro da cidade desde 1971. Em 1985, ele mudou de endereço e suas instalações foram parcialmente demolidas. Uma das salas não foi abaixo, e era exatamente nela que o aparelho foi encontrado, recolhido e vendido a um ferro-velho.

 A contaminação

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Vista do ferro-velho (a esquerda) onde o aparelho foi desmontado. Imagem: g1.globo.com

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No dia 13 de setembro de 1987, assim que chegou, o aparelho foi desmontado pelo dono do estabelecimento, Devair Ferreira, que procurava chumbo para ser revendido a terceiros. Ao desmontar o equipamento, o dono do ferro-velho expôs ao ambiente 19,26 g de cloreto de césio (CsCl), um pó, de cor branca, mas que quando levado para um local desprovido de luz, emitia um brilho azulado. Intrigado e deslumbrado com a descoberta, Devair levou o pó para mostrar a sua esposa e distribuiu para familiares e amigos.

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O Pó do Césio brilhava e chamou a atenção de todos. Imagem: Conexão jornalismo

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Alguns dias após o manuseio do pó, as pessoas começaram a desenvolver alguns sintomas: tontura, náuseas, vômitos e diarreias.

Ao procurarem um hospital, o médico erroneamente diagnosticou uma virose, algo muito comum de ocorrer nas consultas relâmpago praticadas no Brasil. A esposa de Devair, não conformada com o estado em que sua filha se encontrava, desconfiou do pó e levou para a vigilância sanitária da cidade averiguar. Após algumas pesquisas, descobriram que o problema era a contaminação por césio 137.

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Descontaminação da área afetada. Imagem: Internet

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Procedimentos de emergência

Milhares de pessoas, quase 10% da população de Goiânia,  tiveram que ser inspecionadas para verificação dos níveis de radiação. Algo próximo a 112 mil pessoas foram monitoradas e, dentre elas, mais de uma centena apresentaram contaminação.

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Fila no estádio Olímpico de Goiânia, para que as pessoas fossem analisadas em relação aos níveis de radiação. Imagem: g1.globo.com

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Todo material em contato com a radiação teve que ser recolhido. São 6.000 toneladas de lixo (roupas, utensílios, materiais de construção, dentre outros). Tal volume radioativo encontra-se confinado em 1.200 caixas, 2.900 tambores e 14 contêineres (revestidos com concreto e aço) em um depósito construído na cidade de Abadia de Goiás.

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Local de armazenamento do material contaminado. Fonte: 137cesio.wordpress.com

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Oficialmente, quatro pessoas morreram por exposição excessiva à radiação, mas o número de vítimas contaminadas, no médio e longo prazo, ainda gera discussão, mesmo 30 anos após a tragédia ter ocorrido. O governo federal reconhece 120 pessoas contaminadas. O governo de Goiás, porém, fala em um número quase dez vezes maior, 1.032 casos. O Greenpeace, trabalha com um número de 60 mortes e 6 mil vítimas diretas e indiretas. Veja um site feito pelo Greenpeace sobre o acidente.

Foi o maior acidente radioativo do Brasil e o maior do mundo ocorrido fora das usinas nucleares. Entre 1 e 7, é classificado como nível 5 na Escala Internacional de Acidentes Nucleares.  Até hoje, vítimas do acidente lutam na justiça pelo direito a uma indenização.

Que sirva de lição para toda a sociedade, no que se refere a descarte de lixo. Não é somente nos hospitais que existem perigos, na indústria a possibilidade de contaminação do meio ambiente é imensa. O lixo doméstico, tão negligenciado, também pode apresentar contaminações, principalmente quando descartamos, de forma equivocada, remédios, óleos, tintas, seringas, pilhas, baterias, materiais inflamáveis, entre outros.

Espero ter aumentado o conhecimento de todos os leitores. Curtam nossa página no Facebook e compartilhem nosso texto! Abraço do Clebinho!

Publicado em 08.04.2015

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