164. O Sequestro do Século – 1969

APOIO : Colégio Cotemig

Em nosso último texto abordamos a Guerrilha do Araguaia, maior movimento armado contra a ditadura militar em nosso país. No post de hoje iremos aprender um pouco mais sobre outro fato marcante deste período, o extraordinário sequestro do embaixador norte-americano no brasil.

Antecedentes

No dia 13 de dezembro de 1968 entrou em vigor o famigerado AI-5, Ato Institucional Número 5, lançando o Brasil no momento de maior repressão da ditadura. A partir daquele momento o presidente da república adquiriu plenos poderes e o habeas corpos deixou de existir.

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Capas dos jornais da época anunciando a entrada em vigor do AI-5. Imagem: Internet

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Nos meses que se seguiram, vários sequestros, assaltos a bancos e invasões a quartéis se intensificaram. Foi a forma encontrada por alguns militantes contrários a ditadura para forçar a libertação de presos políticos, conseguirem dinheiro e armas. Quanto mais ações aconteciam, maior era a reação dos militares. Foi um momento conturbado da história brasileira. O tema de hoje é um capítulo, possivelmente o mais polêmico, desta turbulência.

Motivação

No início de setembro de 1969 a situação no Brasil estava tensa. O presidente Costa e Silva havia se afastado do cargo devido a uma isquemia cerebral e o país era governado por uma junta militar.

Dois militantes de  esquerda, Franklin Martins e Cid Benjamin,  se radicalizaram. Bolaram um plano para sequestrar o embaixador norte-americano no Brasil. Pelo menos em nosso país, algo desta magnitude nunca havia sido tentado. Para tanto, montaram uma equipe formada por membros da DI-GB (Dissidência Guanabara) e da ANL (Ação Libertadora Nacional), ambos grupos que haviam optado pela luta armada contra o regime. Neste período, os militantes da DI-GB assinavam seus atos como  MR-8 (Movimento revolucionário 8 de Outubro), em homenagem a um outro grupo que havia sido desbaratado pelo governo.

O objetivo central era a libertação de Vladimir Palmeira, ícone da luta estudantil contra a ditadura. Além dele, outros 14 presos políticos seriam trocados pelo embaixador.

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Vladimir Palmeira discursando durante uma passeata contra o regime em 1968. Imagem: Internet

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A ação

Durante alguns dias levantaram o trajeto do carro que levava o embaixador, até que em 4 de setembro de 1969 a ação foi realizada. Ás 14:30, na rua Marques no bairro Humaitá (RJ), o veículo do diplomata foi bloqueado e tomado de assalto. Algumas ruas mais a frente, os sequestradores trocaram de veículo, entraram em um Kombi, deixando para trás o motorista junto a uma carta com exigências. Charles Burke Elbrick, diplomata norte-americano, estava sequestrado no Brasil.

Exigências

Melhor do que tentar explicar é transcrever o trecho inicial da carta:

“Grupos revolucionários detiveram hoje o sr. Charles Burke Elbrick, embaixador dos Estados Unidos, levando-o para algum lugar do país, onde o mantêm preso. Este ato não é um episódio isolado. Ele se soma aos inúmeros atos revolucionários já levados a cabo: assaltos a bancos, nos quais se arrecadam fundos para a revolução, tomando de volta o que os banqueiros tomam do povo e de seus empregados; ocupação de quartéis e delegacias, onde se conseguem armas e munições para a luta pela derrubada da ditadura; invasões de presídios, quando se libertam revolucionários, para devolvê-los à luta do povo; explosões de prédios que simbolizam a opressão; e o justiçamento de carrascos e torturadores.

Na verdade, o rapto do embaixador é apenas mais um ato da guerra revolucionária, que avança a cada dia e que ainda este ano iniciará sua etapa de guerrilha rural…”

No último parágrafo, provavelmente faziam referência a Guerrilha do Araguaia. Agora, veja o trecho em que os sequestradores exigem o resgate:

“…A vida e a morte do sr. embaixador estão nas mãos da ditadura. Se ela atender a duas exigências, o sr. Burke Elbrick será libertado. Caso contrário, seremos obrigados a cumprir a justiça revolucionária. Nossas duas exigências são:

a) A libertação de quinze prisioneiros políticos. São quinze revolucionários entre os milhares que sofrem as torturas nas prisões-quartéis de todo o país, que são espancados, seviciados, e que amargam as humilhações impostas pelos militares…

b) A publicação e leitura desta mensagem, na íntegra, nos principais jornais, rádios e televisões de todo o país.”

Desfecho

Por mais de 70 horas o norte-americano ficou em uma casa localizada na Rua Barão de Petrópolis, no bairro do Rio Comprido, Rio de Janeiro. O local havia sido alugado por Fernando Gabeira, importante nome da atual política brasileira. A Junta Militar já tinha conhecimento do cativeiro, mas por temer a morte do embaixador, cederam a pressão. Não queriam ter que explicar aos EUA, maior aliado do regime, a morte de um de seus diplomatas.

Após o desembarque dos 15 escolhidos no México, enfim, os sequestrados libertaram o embaixador, ao final de um jogo do Flamengo no Maracanã. Astutamente se misturaram a multidão e escaparam todos. Dias mais tarde vários envolvidos na ação foram presos. Alguns foram libertados e outros exilados. Também tiveram os  que morreram torturados na prisão.

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Charles Burke, embaixador sequestrado, teve como único ferimento uma coronhada, recebida por reagir, achando que seria assassinado no momento da tomada de seu veículo. Imagem: Internet

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Após o fantástico episódio, Charles Burke deu demonstrações de simpatia pelos sequestradores os chamando de “fanáticos inteligentes”. Este texto secreto foi liberado nos últimos anos. Veja em reportagem da Folha de São Paulo.

Nomes

Os 12 sequestradores eram:

Joaquim Câmara Ferreira, Virgílio Gomes da Silva, Franklin Martins, Manoel Cyrillo, Paulo de Tarso Venceslau, Vera Sílvia Magalhães, José Sebastião Moura, João Lopes Salgado, Cláudio Torres, Fernando Gabeira, Cid Benjamin, Sérgio Torres e Antônio Freitas Filho.

Entre eles, destaco Franklin Martin, que depois foi ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social do Brasil durante o mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva. Também conhecido atualmente é Fernando Gabeira, jornalista, escritor e político.  Em um encontro ocorrido em 2005, alguns personagens da espetacular ação discutem o fato. Vejam no site Youtube.

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Libertados embarcando para o México. Imagem: Internet

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Acima, os 15 libertados após o sequestro. Em pé: Luís Travassos, José Dirceu, José Ibrahin, Onofre Pinto, Ricardo Vilas Boas, Maria Augusta Carneiro (única mulher), Ricardo Zarattini e Rolando Frati. Agachados: João Leonardo Rocha, Agonalto Pacheco, Vladimir Palmeira (citado em nosso texto), Ivens Marchetti e Flávio Tavares. Gregório Bezerra e Mario Zanconato embarcaram depois.

Destaque atual para José Dirceu, ex-dirigente do PT e hoje completamente atolado em acusações de corrupção, tanto no mensalão quanto na lava jato. Lutou tanto contra a ditadura para depois manchar sua biografia desta forma.

Com o sucesso da ação, uma série de sequestros de diplomatas ocorreram em 1970. Confiram reportagem no site do Jornal O Globo.

Próximo texto

Nosso próximo post finaliza a trilogia de acontecimentos fantásticos durante o Regime Militar com o Atentado ao Riocentro. Imperdível!

Espero ter aumentado seu conhecimento. Curta nossa página no Facebook e compartilhe nosso texto! Abraço do Clebinho!

Publicado em 22.05.2017