165. O Atentado ao Riocentro – 1981

Finalizando a trilogia dos fatos marcantes ocorridos durante a Ditadura Militar no Brasil, abordamos o enigmático atentado ao RioCentro. Ainda hoje este fato desperta grande interesse da mídia, se renovando sempre com novos depoimentos e descobertas.

Momento 

No início da década de 1980 o Brasil vivia um momento atraente. O presidente do país era João Batista Figueiredo, que estava dando continuidade ao processo de abertura iniciado pelo seu antecessor, Ernesto Geisel. A cada dia que passava estávamos mais próximos da tão sonhada democracia.

Aos poucos, o Brasil vivia o processo conhecido como “distensão”. A censura prévia vinha diminuindo e medida liberalizantes estavam sendo adotadas. Ao final de década de 1970, a oposição armada já havia sido aniquilada e, naquele momento, quem fazia oposição ao regime eram os brasileiros a favor da democracia. Não havia mais espaço para um governo brutal.

Com uma inflação galopante e uma dívida externa cada vez maior, os militares sabiam que não ficariam no poder  por muito mais tempo. Somente no governo Geisel a inflação havia saltado de 16% para 45% e a dívida externa elevada de US$ 6 bilhões para US$ 45 bilhões.

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Geisel passa a faixa presidencial a Figueiredo. Os dois foram responsáveis pela transição entre o regime ditatorial e a democracia. Imagem: Internet

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Alguns militares envolvidos na  repressão, principalmente membros das organizações CIE¹, SNI² e DOI-CODI³, eram completamente contrários a abertura política. O medo era que a redemocratização representasse o fim de suas funções, além do risco de uma possível vingança da sociedade pelos seus atos repressores no passado. 

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Comissão Nacional da Verdade (CNV) é o nome da comissão que investigou as graves violações de direitos humanos cometidos por agentes públicos durante as ditaduras do passado brasileiro. A charge de Latuff nos mostra o antigo prédio do DOI-CODI , com se fosse uma pessoa no pau de arara, sendo torturada, fato corriqueiro no passado.

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Contra a abertura gradual que vinha acontecendo, uma ação estapafúrdia foi tramada pelos militares desgostosos. Simplesmente, iriam explodir bombas para machucar e matar pessoas. Acreditavam que, jogando a culpa do atentado em grupos radicais de esquerda, o povo apoiaria a continuidade do regime. É a antiga política de espalhar o medo para legitimar um governo opressor.

Atentado

 No dia 30 de abril de 1981 acontecia no Riocentro uma festa para comemorar o dia do trabalhador (1º de maio). Os militares descontentes montaram algumas equipes com  o intuito de propalar o terror.

A primeira equipe tinha a missão de implantar 3 bombas que iriam explodir em meio aos presentes da festa. Em um veículo puma com placas modificadas estava o seu proprietário, o capitão Wilson Luiz Chaves Machado e o sargento Guilherme Pereira do Rosário, ambos militares lotados no  DOI do I Exército, no Rio de Janeiro. Eles eram os encarregados pelos artefatos. Algo deu errado e duas bombas explodiram no colo do passageiro, matando-o e ferindo gravemente o motorista.

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Automóvel após as explosões e a retirada do corpo do passageiro. Imagem: internet

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A segunda equipe, chefiada pelo coronel  Freddie Perdigão Pereira, tinha como alvo a estação de eletricidade, o que deixaria o local sem luz, ampliando ainda mais o pânico entre as  pessoas. Também foi um fracasso e a bomba não teve potência para tal.

Outras equipes tinham como missão prender suspeitos do atentado, obviamente inocentes, e promover pichações com a sigla VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), um grupo de militantes da esquerda já extintos desde 1972, quando tiveram seus membros mortos pela ditadura.

Os artistas (Gal Costa, Morais Moreira…) pouco ficaram sabendo do ocorrido, e eram avisados à medida que seus shows acabavam. O público também não percebeu o fracassado atentado. A notícia só veio a tona quando o cantor e compositor Gonzaguinha falou nos microfones: “Pessoas contra a democracia jogaram bombas lá fora para nos amedrontar”.

Corroborando as suspeitas de que algo errado acontecia naquele dia, e de que gente graúda estava envolvida, o coronel responsável havia troado o comando do policiamento local dois dias antes do ocorrido, marcando a posse do novo comandante para dia 30, o mesmo do atentado. Assim, ele não teve tempo de se familiarizar com o que estava acontecendo. Para piorar, o coronel diminuiu a quantidade de policiais presentes no evento.

 Desfecho Melancólico 

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Manchete de jornal mostrando que os dois envolvidos no atentado foram considerados vítimas e não culpados. Imagem: Internet

A ditadura estava próxima do fim, mas ainda não havia acabado. Pressionados pelos militares, os investigadores arquivaram o caso. Inclusive, durante as apurações, foi trocada a presidência do inquérito policial, assim que o coronel responsável, Luís Antônio do Prado Ribeiro, se convenceu da participação de membros do exército na farsa.

O Inquérito Policial Militar (IPM) afirmou que os dois militares foram vítimas de um atentado. As forças armadas encobriram o que todo mundo sabia. Veja ao lado a manchete do jornal Estado de São Paulo sobre o caso. 

Em 1999 o caso voltou a tona quando o ex-chefe do SNI, general Octávio de Medeiros, afirmou que ficou sabendo do atentado uma hora antes do ocorrido, confirmando a tese de que os militares foram os artífices da trama. Uma série de generais e coronéis foram citados, mas novamente o caso foi arquivado pelo Superior Tribunal Militar, alegando que o caso se enquadra na Lei da Anistia, mesmo tendo acontecido fora dos anos cobertos por ela. Essa lei anistiou tanto agentes públicos quanto militantes armados que cometeram crimes políticos durante a ditadura.

Em maio de 2014, 5 oficiais da reserva do Exército e outros dois réus foram indiciados pelo atentado ao Riocentro, em uma nova tentativa de puni-los.  Em julho do mesmo ano, receberam  habeas corpus. A justiça considerou o crime prescrito.

Leiam esta confissão de um dos participantes do atentado publicada pelo site IG Último Segundo. Ele conta que teriam outras bombas, além de esclarecer que o artefato que explodiu no carro seria colocado no palco do evento. Ele ainda afirma que até mesmo o atendimento de urgência havia sido cancelado no dia, para que as vítimas não fossem socorridas com rapidez.

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O polêmico general Newton Cruz, um dos condenados pelo atentado ao Riocentro, deu uma entrevista ao programa Dossiê Globononews, simplesmente imperdível, confiram.

 

Hoje, a farsa já foi completamente esclarecida, mas ninguém foi preso. Mais um triste capítulo de nossa longa história de impunidade. Quanto ao objetivo do atentado, ocorreu o contrário, precipitando ainda mais o fim do regime militar no Brasil. Depois, a linha dura, como eram chamados os militares revoltosos, não tinha mais forças para interromper o inevitável, a democracia.

Amplie seu conhecimento sobre este assunto assistindo a outra reportagem do canal  Globo News, especificamente sobre o atentado,  publicada no site Youtube.

PS: Antes do Atentado ao Riocentro, este mesmo grupo de militares já haviam, em 27 de agosto de 1980, enviado uma carta bomba para a sede da OAB no Rio de Janeiro, matando a secretária Lyda Monteiro da Silva, de 59 anos. neste momento, os advogados estavam empenhados na luta pela redemocratização de nosso país.

1 – Centro de Informações do Exército (CIE)

2 – Serviço Nacional de Informações (SNI)

3 – Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI)

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Publicado em 29.05.2017

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